quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

GOL DE LETRA

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Tonico


Canhões no meio do caminho

Canhões no meio do caminho
Durante as obras de revitalização do Porto Maravilha, operários encontram dois canhões do século XVII que podem revelar uma nova história da região
Felipe Sáles
13/2/2012
Esta segunda-feira foi de muita vibração para arqueólogos e pesquisadores no Rio de Janeiro. Durante as obras de revitalização da Zona Portuária, operários encontraram dois canhões do século XVII que intrigam pesquisadores especializados no assunto.
As armas foram encontradas nesta manhã sob a Rua Sacadura Cabral, próximo ao Largo da Prainha e à Pedra do Sal. Especialista em armamento militar, o historiador Adler Homero Fonseca, pesquisador do Departamento de Patrimônio Material de Fiscalização do Iphan no Rio, esteve no local a convite dos arqueólogos que trabalham na obra. A equipe ainda não sabe a origem dos canhões, mas, segundo Adler, os equipamentos não se enquadram em nenhuma estrutura de fortificação da região – o que aumenta ainda mais o mistério, já que não há notícias de que havia um Forte na região do Porto.
“É uma estrutura muito exótica, muito antiga. Ainda não conseguimos identificar o período exato dos canhões, mas suspeitamos que seja do século XVII. Eles podem revelar que existiu na região uma estrutura de Forte até então desconhecida.
Foto Adler Homero
O Iphan ainda será acionado formalmente para estudar os equipamentos. A partir disso, um parecer prévio sobre os canhões fica pronto em até dois dias. A maior preocupação agora, porém, é manter a integridade da descoberta, já que se trata de uma das regiões mais movimentadas da cidade.

Samuel Langhorne Clemens, conhecido como Mark Twain

Samuel Langhorne Clemens, conhecido como Mark Twain (1835-1910), dois garotos, dois personagens principais do escritor, os meninos Tom Sawyer e Huckleberry Finn, protagonistas de aventuras que povoam a imaginação de jovens leitores de todo o mundo há mais de um século.
Mark Twain é considerado o pai da literatura norte americana. Seus livros serviram de referência e inspiração para obras culturais em todas as áreas, e Tom Sawyer (que emprestou o nome ao personagem de Lost) se tornou um verdadeiro símbolo do espírito da juventude. Conheça mais sobre o autor dos clássicos “O Príncipe e o Mendígo“, “Aventuras de Tom Sawyer’, e ”Aventuras de Huckleberry Finn”










Leia mais em: http://ebooksgratis.com.br/category/informacao-e-cultura/curiosidades/#ixzz1n1WroKVz

Tesouro malcheiroso

Tesouro malcheiroso



Para perfurar o primeiro poço de petróleo do país, os exploradores lutaram principalmente contra a burocracia


Em plena manhã de sábado, os baianos acordaram com as manchetes dos jornais anunciando: “Jorrou! Petróleo em Lobato!” O acontecimento pôs fim a uma grande expectativa que havia mobilizado o país, pois naquele janeiro de 1939 foi descoberto o petróleo nacional.
O fato ganhou ainda mais importância porque estava para começar outra guerra mundial, com grande risco de haver racionamento de combustível. As explorações haviam começado em 1931, quando o comerciante Oscar Cordeiro (1989-1970) e o engenheiro Manoel Inácio Bastos (1891-1940) foram averiguar notícias sobre um óleo malcheiroso em Lobato, na época um bairro afastado e pouco povoado de Salvador. Acreditando tratar-se de petróleo, não mediram esforços para perfurar um poço no local. Era o início da história do “óleo negro” na Bahia. Essas primeiras tentativas eram de caráter privado, com pouquíssimos recursos tecnológicos, bem diferentes da atual exploração do pré-sal, que conta com imenso aparato tecnológico e financeiro, com participação de capital privado e estatal.
Mas a busca pelo petróleo data de meados do século XIX, quando se procurava o carvão mineral, a principal fonte de calor que movia navios, trens e máquinas a vapor, símbolos da Revolução Industrial. Na Europa – e mais tarde também no Brasil –, o carvão fornecia o gás para os novos sistemas de iluminação. Com suas imensas jazidas, a Inglaterra detinha o controle do seu comércio mundial, mas também explorava o mundo em busca de outras reservas, como o petróleo.
Na Bahia, os primeiros indícios deste óleo foram encontrados nas explorações de carvão. As atividades mais antigas ocorreram em 1852, numa empreitada envolvendo o presidente da província, João Maurício Wanderley (1815-1889), comerciantes ingleses e baianos. Após dois anos de trabalho, as amostras foram enviadas ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, que tinha entre suas funções avaliar todas as possíveis descobertas mineralógicas do país, indicando sua natureza geológica. Sobre a empreitada, o diretor do Museu, Frederico Leopoldo Burlamaqui, comentou na ocasião: “É admirável a impávida certesa que nutrem os empresários d´encontrar huma mina de carvão de pedra no lugar onde acharão o petróleo.”
Para a infelicidade dos exploradores e patrocinadores, não se tratava de carvão de pedra. As análises indicavam uma variedade de minerais combustíveis, entre os quais o petróleo. Com resultados negativos, a empreitada foi abandonada em 1859. Havia outros exploradores que também procuravam minerais na região, mas deixavam para trás suas aventuras por causa de resultados semelhantes. Ao que tudo indica, as informações acumuladas nesse primeiro momento influenciaram os descobridores de Lobato mais tarde.
A importância do petróleo como combustível ainda era pequena. No início do século XIX, mineiros nos Estados Unidos reclamavam que os poços de extração de sal estavam impregnados de um óleo malcheiroso que era utilizado basicamente para iluminação. Mais tarde, as explorações do coronel norte-americano Edwin Drake em 1859, na cidade de Tutisville, na Pensilvânia, representaram um importante marco na história do petróleo.
A partir do início do século XX, o petróleo se tornou o principal combustível da economia no mundo, superando o carvão mineral. Logo seus derivados foram usados para a expansão de uma invenção fundamental: os motores de explosão interna. Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a utilização dos primeiros aviões e carros movidos a derivados de petróleo em combate influenciou de alguma maneira no resultado a favor dos Aliados (EUA, Inglaterra e França). Além disso, o conflito provocou pela primeira vez o risco, em escala mundial, da escassez de petróleo, conscientizando governos e parte da sociedade sobre a importância de os países terem suas próprias reservas.
Mesmo depois da guerra, ao longo da década de 1920, a corrida internacional pelo petróleo se intensificou. No Brasil, o controle do fornecimento dos derivados estava com empresas como Esso, Texaco e Shell. Quando chegaram aqui, estavam interessadas em ampliar sua presença na descoberta de novas reservas.
Mas técnicos e deputados nacionalistas começaram a cobrar uma postura radical contra a presença de empresas estrangeiras no setor, em 1921, exigindo que o petróleo fosse tratado como uma questão nacional. A preocupação central era a dependência brasileira no fornecimento de combustíveis. Segundo os políticos, a legislação abria muito espaço para empresas privadas, nacionais ou estrangeiras, explorarem todo o setor. Por isso o Estado deveria garantir o controle daquela riqueza mineral.
O ministro da Agricultura, Ildefonso Simões Lopes (1866-1843), tomou partido na questão, participando da criação da Lei de Minas de 1921, que relativizava o poder privado sobre a exploração do petróleo. Em 1926, ele ainda trabalhou na revisão constitucional que colocou o setor petrolífero como item de segurança nacional, intransferível para estrangeiros. “Pela sua alta importância mundial, essa espécie de jazida requeria uma legislação especial. É chegado o momento de realizá-la com maior atenção”, declarou à época.
Na mesma ocasião, o órgão oficial responsável por pesquisas geológicas, o Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil (SGMB), organizou um levantamento das potencialidades petrolíferas do país, especialmente no Sul e no Nordeste. Mas os resultados iniciais não foram muito animadores quanto à existência de reservas imediatas. Os técnicos insistiam em pesquisas na Bacia de Maraú, situada na Baía de Todos os Santos, e os estudos foram paralisados por falta de recursos.
A ideia de controlar o petróleo nacional predominou nos anos 1930, no primeiro governo de Getulio Vargas (1930-1937), de forma mais nacionalista e restritiva do produto. O Código de Minas, de 1934, determinava que somente empresas com acionistas brasileiros poderiam explorar o setor. Além disso, foi criado um novo órgão, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), responsável pela execução dos planos do governo para identificar novas reservas. Essa condução nacionalista se radicalizou após o golpe do Estado Novo (1937-1945), com a criação, em 1938, do Conselho Nacional de Petróleo. O órgão refletia a nova percepção do governo sobre o petróleo.
No entanto, as principais controvérsias sobre o petróleo brasileiro não vieram dos arranjos oficiais. Em Alagoas e São Paulo, o escritor e empresário Monteiro Lobato, envolvido com explorações particulares de petróleo, trazia a público outro debate: a descoberta de imensas reservas e a busca de apoio técnico junto ao governo federal. Mas, diante da postura defensiva do DNPM, partiu para graves acusações a Vargas, denunciando supostos interesses internacionais.
Na Bahia, as polêmicas estavam centradas no petróleo do bairro de Lobato. O engenheiro Manoel Inácio Bastos e o empreendedor Oscar Cordeiro registraram, juntos, a mina em cartório e criaram uma sociedade. Entusiasmados, solicitaram ao governo uma sonda e um técnico para auxiliar nos trabalhos, e enviaram suas amostras para uma análise oficial. Além de recusar o pedido, o DNPM solicitou novas amostras in natura, pois o material enviado parecia já ter sido manipulado.
A discussão ficou tensa, com acusações cada vez mais graves de incompetência e favorecimento a interesses estrangeiros. O órgão oficial se defendia afirmando que se baseava em critérios puramente técnicos: as amostras não indicavam as condições geológicas de petróleo no local. No final de 1934, enquanto Manoel Inácio Bastos se afastava para se dedicar a outras pesquisas, Oscar Cordeiro continuou sua luta na imprensa. As atenções sobre a Bahia iam crescendo, uma vez que as reservas de Monteiro Lobato não se confirmaram. E em 1936, renomados geólogos questionavam publicamente a interpretação oficial.
Diante da pressão, o DNPM deslocou uma sonda em agosto de 1937, perfurando o poço n° 153 em Lobato. No ano seguinte, Oscar Cordeiro trouxe, com a ajuda do governador, uma sonda mais potente. Finalmente, em janeiro de 1939, o petróleo jorrou na Bahia, diminuindo a ansiedade em relação à produção nacional. O primeiro campo descoberto no Brasil, mesmo economicamente inviável – a produção média em Lobato e em suas imediações estava abaixo do esperado –, abriu perspectivas sobre a existência de imensas jazidas em locais próximos. Pouco tempo depois, em 1941, na região de Candeias, eram perfurados, finalmente, os primeiros poços em escala comercial do país.
Desse modo, a riqueza do subsolo afastou parcialmente o Brasil dos males da guerra. Mas ninguém poderia imaginar que, meio século depois, petróleo e guerra se tornariam palavras quase sinônimas.
Daniel Rebouçasé coautor de História do Petróleo na Bahia (EPP, 2010).



domingo, 19 de fevereiro de 2012

Juca Paranhos: o barão bon-vivant

Juca Paranhos: o barão bon-vivant




Patrono da diplomacia brasileira, o Barão do Rio Branco - cujo centenário da morte é lembrado este ano - curtiu muito a vida até ter atuação fundamental na consolidação do território nacional

Alexandre Belmonte


6/2/2012

Corre o ano de 1862 e a boemia acadêmica está no seu apogeu: o Romantismo está em toda a parte. No quarto de uma república na esquina do Beco dos Cornos, em São Paulo, o futuro barão dorme com a cabeça apoiada num velho paletó, enfiado a socos numa fronha, após uma noite de algazarra. A luz é de velas, postas em gargalos de garrafa. Uma ruidosa comemoração acaba de acontecer.

Sim, estamos falando de José Maria da Silva Paranhos Junior, o barão do Rio Branco – ou Juca Paranhos, para os íntimos. Como lembra Marcio Tavares D’Amaral, em "O Barão do Rio Branco" (Editora Três, 1974), as bagunças aconteciam “a qualquer propósito ou sem propósito algum”. Nada que um banho frio não curasse: Juca costumava se banhar, nu em pelo, no rio Tamanduateí.

Saraus literários, serenatas noturnas com flauta, violão e cavaquinho, e um jovem pela primeira vez longe dos pais, numa cidade estranha. O futuro barão vivia numa república com outros jovens, que o definiam como um “colega agradável, sempre alegre, pronto para as festas e brincadeiras”. A cavalo, ia até a Penha, a Pinheiros e ao Ipiranga. Presença constante em teatros, circos, corridas de cavalo, bailes, e também em procissões e missas cantadas. Na livraria Garraux ou em alguma confeitaria, passava horas a conversar. Vai para o Recife, conclui o bacharelado e parte para a Europa, com um prêmio de loteria de 12 contos de réis nos bolsos!

• 'Uma vida perdida de boêmio'

Seus hábitos pareciam incomodar muita gente. Era vaidoso, usava cabelos longos, penteados para trás, e uma solene sobrecasaca. Gostava de vestir-se bem, e dizem que era elegante e polido, de uma beleza quase feminina. Luís Viana Filho, um de seus biógrafos, chega a dizer que “nada o deliciava mais do que a indiscrição de um decote, permitindo-lhe avançar o olhar sobre um belo colo”. Ainda no Colégio Pedro II, o futuro barão iniciava sua vida sentimental de mãos dadas com uma menina da sua idade – mas era ainda tão criança que seu pai, o visconde do Rio Branco, ia buscá-lo na saída da escola.

No Rio, o barão passava várias noites em teatros e cafés, e muitos diziam que levava “uma vida perdida de boêmio”. Almoçava às 3 da tarde e jantava de madrugada, na companhia das atrizes do Teatro Alcazar. É aí que, em 1872, apaixona-se pela atriz belga Marie Stevens. O primeiro filho do casal nasce um ano depois, em Paris, e Juca faz com que ela regresse prontamente ao Brasil. Somente após dois anos é que sua mãe aceita batizar o pequeno Raul, e mesmo assim por procuração.

Nascem mais filhos, e a princesa Isabel, valendo-se da ausência do pai, assina seu ato de nomeação de cônsul em Liverpool. Marie vai para Paris com as crianças, enquanto Juca se prepara para ir a Liverpool. Nesse ínterim, apaixona-se pela sobrinha do Duque de Caxias, Maria Bernardina, “um anjo de beleza” de apenas 15 anos. Vai para Liverpool e passa seu tempo entre seus afazeres na cidade inglesa e sua vida familiar em Paris. Escreve a um amigo italiano, em 1877, dizendo que a situação não vai bem com a “marechala”: não consegue romper seu casamento com Marie e desposar Maria Bernardina. “É muito difícil, muito doloroso para um pai não saber qual será o destino e o futuro dos seus filhos”, desabafa.






























domingo, 8 de janeiro de 2012

Kodak se prepara para pedir concordata

Kodak se prepara para pedir concordata
5 de janeiro de 2012
12h49
Nayara Fraga
Atualizado às 20h12
A Kodak, empresa do segmento fotográfico fundada em Nova York há 131 anos, está se preparando para pedir proteção à falência, segundo o The Wall Street Journal. Apesar de tentar evitar a concordata por meio da venda de 1.100 patentes, a companhia já conversa com bancos sobre US$ 1 bilhão em financiamento para se sustentar durante o processo de recuperação judicial.-

A história da Kodak – linha do tempo
Pessoas próximas ao assunto afirmaram ao diário que o pedido de concordata pode ocorrer já em fevereiro. O fato, para o jornal, entraria para a história como uma “decadência impressionante de uma empresa que já esteve no ranking dos grandes titãs do mundo corporativo americano”. Um porta-voz da Kodak não quis comentar “rumores ou especulação de mercado”.
O diário lembra que a Kodak atraía engenheiros talentosos de todos os cantos dos Estados Unidos para sua sede, em Rochester, Nova York (veja foto acima), e investia dinheiro em pesquisas que produziram milhares de avanços em imagem e outras tecnologias. “A companhia, por exemplo, inventou a câmera digital, em 1975, mas nunca conseguiu capitalizar com a nova tecnologia”, diz o Journal.
No período de concordata, a Kodak continuaria a operar normalmente, mas o foco seria a venda das patentes em um leilão com supervisão judicial. A empresa emprega 19 mil pessoas, cujo destino agora está envolto em dúvidas.
Essa incerteza, segundo o diário americano, era impensável na Kodak. Seu quase monopólio no setor de filmes fotográficos produziu altas margens de lucro que a companhia costumava compartilhar com seus funcionários. Era tradição, firmada pelo fundador George Eastman, distribuir bônus com base nos resultados dos trabalhadores, e eles “usavam os cheques para comprar carros e comemorar em restaurantes luxuosos”, conta o Journal.
Exclusão
Outro sinal de que a outrora líder do segmento fotográfico está em momento delicado é a possibilidade de exclusão da empresa da Bolsa de Nova York. Isso pode ocorrer caso ela não consiga um aumento no preço de suas ações, cotadas a US$ 1 há mais de 30 dias consecutivos.
Em 1997, a ação da Kodak custava US$ 90. Na última sexta-feira, o papel fechou a US$ 0,76. A empresa tem seis meses para obter um preço de fechamento de, pelo menos, US$ 1 no último dia útil de qualquer mês, e preço médio de ao menos US$ 1 nos 30 dias úteis de operação anteriores.
Fotógrafos
Dada a força do nome Kodak no segmento fotográfico, natural que fotógrafos lamentem o cenário obscuro em que se encontra a empresa com a qual um dia eles estabeleceram vínculo. “Fotógrafos se preparam para a provável morte da companhia que foi uma âncora de suas vocações por toda a vida, embora nenhum deles se demonstre surpreso”, diz o Washington Post, em referência a mensagens desses profissionais no site de microblogging Twitter.
“Triste saber que um dia nossas crianças não entenderão a frase ‘Kodak Moment’”, disse o perfil de @RebeccaCarelli no site. “Momento Kodak” era o mote publicitário usado pela empresa para definir uma cena que merecia ser fotografada.
A ironia de ser a criadora do equipamento responsável por sua própria decadência ganhou tom de piada no site de tecnologia Cnet, uma das publicações de destaque do setor. “Obrigado, Kodak, por inventar a fotografia digital e destruir sua linha principal de produtos. O jeito é tirar uma (foto) para a equipe”, dizia o cartão eletrônico feito pelo site.
O Cnet afirma que rumores em Taiwan sugerem que a empresa fará ainda menos câmeras no próximo ano, já que ela não pode mais acompanhar o ritmo de Canon, Sony e Nikon.

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domingo, 1 de janeiro de 2012

Daniel Piza









HOMENAGEM À DANIEL PIZA, SUAS ÚLTIMAS PALAVRAS NO "O ESTADÃO"
QUANDO ELE ESCREVEU AS LINHAS ABAIXO.jornalismo/ crítica28.dezembro.2011 07:57:05




Inté
Parada de fim de ano. Volto no dia 11.
Feliz 2012 para todos nós.





O corpo do jornalista Daniel Piza, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) na última sexta-feira, foi enterrado no Cemitério de Congonhas, em São Paulo, por volta das 11h deste domingo.
Ele estava reunido com sua família na cidade de Gonçalves, interior de Minas Gerais, para as festas de fim de ano, quando começou a passar mal. Piza, de 41 anos, foi atendido de imediato pelo pai, que é médico, mas não resistiu.
Conhecido do grande público por suas participações no programa "Redação Sportv", do canal "Sportv", o jornalista tinha uma coluna no jornal "O Estado de São Paulo", onde começou sua carreira e atuava como editor-executivo. Ele também trabalhou nos jornais "Folha de São Paulo" e "Gazeta Mercantil". Daniel Piza escreveu 17 livros, voltados para o jornalismo e História.
Piza deixa a mulher, a também jornalista Renata Piza, e três filhos, Letícia, de 14 anos, Maria Clara, de 10, e Bernardo, 6.


Daniel Piza, que nasceu em São Paulo em 1970 e estudou Direito no Largo de São Francisco (USP), começou sua carreira de jornalista em O Estado de S. Paulo (1991-92), onde foi repórter do Caderno2 e editor-assistente do Cultura. Trabalhou em seguida na Folha de S. Paulo (1992-95), como repórter e editor-assistente da Ilustrada, cobrindo especialmente as áreas de livros e artes visuais. Foi editor e colunista do caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil (1995-2000). Em maio de 2000, retornou ao Estado como editor-executivo e colunista cultural; desde 2004 assina também uma coluna sobre futebol. Traduziu seis títulos, de autores como Herman Melville e Henry James, e organizou seis outros, nas áreas de jornalismo cultural e literatura brasileira. Escreveu 17 livros, entre eles Jornalismo Cultural (2003), a biografia Machado de Assis - Um Gênio Brasileiro (2005), Aforismos sem Juízo (2008) e os contos de Noites Urbanas (2010). Fez também os roteiros dos documentários São Paulo - Retratos do Mundo e Um Paraíso Perdido - Amazônia de Euclides.





Livros de Daniel Piza já publicados
A maioria deles pode ser encontrada nos sites da Livraria Cultura (www.livcultura.com.br) e da Fnac (www.fnac.com.br)
Autoria
FICÇÃO
"As Senhoritas de Nova York - Descoberta de Pablo Picasso" (FTD, 1996)
"Mundois" (Bei, 2001)
"Noites Urbanas - Contos" (Bertrand Brasil, 2010)
COLETÂNEAS
"Questão de Gosto - Ensaios e Resenhas" (Record, 2000)
"Ora, Bolas - Da Copa de 98 ao Penta" (Nova Alexandria, 2003)
"Perfis & Entrevistas" (Contexto, 2004)
"Contemporâneo de Mim –Dez Anos da Coluna Sinopse" (Bertrand Brasil, 2007)
"Aforismos sem Juízo" (Bertrand Brasil, 2008)


ENSAIOS E REPORTAGENS
"Leituras do Brasil" (Talento, 2003) - www.ecofuturo.org.br
"Jornalismo Cultural" (Contexto, 2003)
"Mistérios da Literatura - Poe, Machado, Conrad e Kafka" (Mauad,2005)
"Amazônia de Euclides" (Leya, 2010)
"Dez Anos que Encolheram o Mundo" (Leya, 2011)


PERFIS E BIOGRAFIAS
"Ayrton Senna - O Eleito" (Ediouro, 2003; edição italiana:Italia Nuova Editori, 2004)
"Paulo Francis - Brasil na Cabeça" (Relume Dumará, 2004)
"Machado de Assis - Um Gênio Brasileiro" (Imprensa Oficial,2005)
LIVROS PATROCINADOS
"Academia Brasileira de Letras - Histórias e Revelações"(Dezembro Editorial, 2003)
"Viagem pela Medicina Brasileira" (Ediouro/ Dezembro Editorial, 2009)
"Chile e Brasil" (Ediouro/ Dezembro Editorial, 2010)
"Carlos Chagas - A Ciência nos Trópicos" (Ediouro/ Dezembro Editorial, 2010)
TEXTOS DE CATÁLOGO
"Gianguido Bonfanti" (2002; edição francesa: Acatos, 2005)
"Isay Weinfeld" (Viana & Mosley, 2006)
Participação em livros
"O que conservam os conservadores?" , in "O Terror - Revista de Filosofia Política" (Jorge Zahar, 2002)
"Dois gêneros separados pela mesma língua", in"Jornalismo e Literatura - A Sedução da Palavra" (Escrituras, 2003)
"A terceira margem do jornalismo cultural", in "Um País Aberto - Reflexões sobre a Folha de S.Paulo e o Jornalismo Contemporâneo"(Publifolha, 2003)
"Em Branco e Preto - Artes Brasileiras na Folha 1990-2003" (6 textos, Publifolha, 2004)
"Veredas da Mente" , in "Imaginação" (AMA - Talento, 2004)
"Abertura para o Futuro" , in "Ciência, Tecnologia e Educação" (Unesco, 2004)
"Uma atração cultural transatlântica", in "Embaixada Brasileira em Paris" (Dezembro Editorial, 2005)
"Não-ficção", in "Cultura & Elegância"(Contexto, 2005)
"Educação pelo Outono", in "Contos para Ler Ouvindo Música" (Record, 2005)
"Pensata" (7 textos, Continente Multicultural, 2005)
"Golpe de Vista" , in "11 Histórias de Futebol"(Nova Alexandria, 2006)
"The Place of Machado de Assis in the Present", in "The Author as Plagiarist - The Case of Machado de Assis" (University of Massachusetts Dartmouth, 2006)
"As Lições de Kilimanjaro", in “A Vida que a Gente Quer Depende da Vida que a Gente Leva” (Instituto Ecofuturo, 2006)
"A Vez da Bola"(com Lourenço Diaféria e Ivan Angelo, Lazuli, 2006)
"Esse Mundo Chamado João", in "Quartas Histórias" (Garamond, 2006)
"Arquitetura da Memória - Milton Hatoum"(2 textos, Editora UFAM, 2007)
"Capitu É a Música", in "Quem É Capitu" (Nova Fronteira, 2008)
"Ledinha", in "Capitu Mandou Flores" (Geração Editorial, 2008)
"Bola de Meia", in "A Cabeça do Futebol" (Casa das Musas, 2009)
Audiolivro
"Machado de Assis - Vida e Obra" (Universidade Falada, 2008)
Roteiros
"São Paulo - Retratos do Mundo" (Dezembro Filmes, dir. Flávio Frederico, 2004)
Colaboração: "Capitu" (TV Globo, dir. Luiz Fernando Carvalho, 2008)
"Um Paraíso Perdido - Amazônia de Euclides" (TV Estadão, dir. Felipe Machado, 2009)
Colaboração: "Caro Francis" (Imovision, dir. nelson Hoineff, 2009)
Organizações
"Waaal - O Dicionário da Corte de Paulo Francis" (Companhia das Letras, 1996)
"O Teatro das Idéias de Bernard Shaw" (Companhia das Letras, 1996)
"Cinco Mulheres", de Lima Barreto (Paz e Terra, 1997)
"Trechos de Os Sertões", de Euclides da Cunha (Paz e Terra, 1997)
"A Vida como Performance" , de Kenneth Tynan (Companhia das Letras, 2004)
"Dentro da Baleia - Ensaios", de George Orwell (Companhia das Letras, 2005)
Traduções
"Benito Cereno", de Herman Melville (Imago, 1993)
"A Máquina do Tempo", de H.G. Wells (Nova Alexandria, 1994)
"Jesus", de Jacques Duquesne (Geração Editorial, 1995)
"A Arte da Ficção", de Henry James (Imaginário, 1995)
"Primeiros Encontros", de Edward Sorel (José Olympio, 1995)
"O Agressor Sexual", de Matthew Stadler (Geração Editorial, 1996)


Participação em traduções
"O Perigo da Hora - The Nation", com Hamilton dos Santos (Scritta, 1994)
"Big Loira", de Dorothy Parker, com Ruy Castro (Cia das Letras, 1995)


Prefácios e Orelhas
"Os Desastres da Guerra - Goya" (Imaginário, 1995)
"Ouvindo Cézanne, Degas, Renoir" (Civilização Brasileira, 2000)
"O País da TV", de Gonçalo Júnior (Conrad, 2001)
"Homens de Ciência", de Alessandro Greco (Conrad, 2001)
"A Vida com a TV", org. Luiz Costa (Senac, 2002)
"Sociologia do Futebol", de Richard Giulianotti (Nova Alexandria, 2002)
"Cabeça de Papel", de Paulo Francis (W11, 2002)
"Esboço para um Auto-retrato" , de Bernard Berenson (Bei, 2003)
"A Leitura e seus Lugares" , de Julio Pimentel Pinto (Estação Liberdade, 2004)
"Este Lado do Paraíso" , de F. Scott Fitzgerald (Superclássicos, 2004)
"Dentro das Marés" , de Joseph Conrad (Revan, 2005)
"O Homem X", de Bruno Paes Manso (Record, 2005)
"O Valete de Espadas", de Gerardo Mello Mourão (Lazuli, 2007)
"Lendas e Notas de Viagem", de Ermano Stradelli (Martins Fontes, 2009)
"Bacana Bacana", de Felipe Machado (Seoman, 2009)
"O Grande Jogo de Billy Phelan", de William Kennedy (Cosac Naify, 2010)

domingo, 22 de maio de 2011

Atropelando o humanismo

Atropelando o humanismo

Daniel Piza
O Estado de São Paulo maio/2011

Nunca antes tivemos tanta liberdade, informação e consumo, em termos gerais. Mas o que temos feito disso? A liberdade se confunde facilmente com o egoísmo, com a exaltação publicitária do “eu faço o que quiser” e o medo de assumir compromissos. A informação não produz cidadãos mais conscientes e debates melhores, pois poucos se interessam por ideias gerais e pelo que aconteceu antes de nascerem. O consumo se torna patologia, em que sempre se olha para o que não se tem, ou seja, para o que o outro tem, mesmo que não haja a menor necessidade de ter aquilo. Com tanta valorização do dinheiro e da aparência, fica mais difícil encontrar amizade e amor verdadeiros, que dependem da confiança no outro em momentos difíceis; e se deterioram rapidamente a arte da conversa e o gosto pela leitura, sem os quais é difícil vencer a imaturidade. Em uma frase, o humanismo tem sido atropelado por nossa vida acelerada.

Abro um site noticioso, por exemplo, e lá estão as notícias mais lidas do dia: “1) Ivete Sangalo cai no palco durante show em Petrolina; 2) Rafinha Bastos causa polêmica após brincar sobre órfãos no Dia das Mães; 3) Elefante de filme com Robert Pattinson sofreu maus tratos; 4) Whitney Houston começa a fazer novo tratamento de reabilitação; 5) Justin Bieber se defende de críticas de atriz de CSI”. Parem o mundo, quero descer! Você pode dizer que boa parte da culpa é da mídia, mas note que nenhuma dessas “reportagens” estava no alto da página, onde se costumam pôr as manchetes mais importantes. E você pode alegar que a permanência em cada uma dessas páginas não passa de 30 segundos, que então o leitor não lhe dá tanta relevância, mas quem disse que a maioria vai gastar mais de um minuto em um assunto mais relevante? Celebridades são “seguidas” mais e mais porque parecem ter tudo: beleza, bajulação e bilhões.

Fala-se muito que nossos tempos são marcados pela diversidade, por não haver tendências hegemônicas, etc. No entanto, li há algum tempo Danuza Leão descrevendo um jantar de dez casais, digamos, no qual oito das mulheres usavam a mesma marca de sapato, com a mesma sola vermelha. A pior uniformidade, porém, é a mental. É a que dita que não basta ter meia dúzia de bolsas, não basta ter um carrão, não basta levar as crianças para uma praia; é preciso ter dezenas de bolsas, carrões ainda mais vistosos, fotos das crianças em Paris. Como disse o escritor Pedro Bandeira, o brasileiro dá mais valor a um tênis do que a um livro. Afinal, está disposto a pagar R$ 300 pelo primeiro, mas diz que R$ 40 pelo segundo é caro – assim como diz que não tem tempo para ler, mas passa horas e horas diante da TV ou nas redes virtuais. A capacidade de concentração está em declínio; muitas coisas são feitas ao mesmo tempo, nenhuma com a devida consistência. Exibir vale mais que saber.

Outra consequência desse mundo cada vez mais frívolo se mostra em ambientes de trabalho de todos os tipos. De olho nas promoções e nos bônus, passar o colega para trás começou a ser atitude elogiável, assim como trabalhar mais horas, mesmo que em prejuízo da vida familiar e do ócio. Funcionários dão aos clientes a desculpa de que “o sistema não permite”, incapazes de contestar essas ordens para não ser acusados de não ter “inteligência emocional”. Nas ruas das grandes cidades, a gentileza vai sarjeta abaixo; SUVs fazem uma luta darwinista pela sobrevivência do mais caro. Mulheres optam pelo papel de bonequinhas de ricaços, e há mais e mais estilistas para vesti-las e cirurgiões para repuxá-las. Jovens vivem com os pais até quase os 40 anos, enfileirando cursos e bicos para adiar a responsabilidade de uma carreira decente e continuando a se vestir do mesmo jeito. Crianças dizem que seu sonho é serem famosas, não importa em quê ou como.

A esta altura, alguns leitores podem estar pensando que esse consumismo e essa alienação são produtos do capitalismo ou da modernidade. Mas o fatalismo ideológico, marxista ou culturalista, não leva a lugar nenhum. Sem o capitalismo moderno, em que a busca do lucro é moderada por regras comuns e em parte transformada em benefícios coletivos, não teríamos tanta liberdade, informação e consumo. Nem preciso dizer como liberdade e informação são fundamentais, para evitar tiranias e respeitar diferenças, e mesmo o consumo tem papel importante em nosso conforto e, sim, em nossa identidade. A culpa não é do sistema, mas do que fazemos dele. Para contrapor essa onda de individualismo exacerbado é preciso uma mudança de mentalidade, não o aumento ou a diminuição do Estado, e relembrar os valores das qualidades interiores e da cultura geral, daquilo que não se pode rotular a partir da forma e do status. “Ninguém sabe o que sou quando rumino”, escreveu Machado de Assis, cansado de ser julgado por seu aspecto exterior. Ser não é aparecer.












Oceano processual

Ministro Cezar Peluso fala da sobrecarga de processos no Judiciário e da luta do STF pelo Estado laico

14 de maio de 2011
Laura Greenhalgh - O Estado de S. Paulo

WASHINGTON - Num dos imponentes salões da Biblioteca do Congresso dos EUA, em Washington, entre afrescos, obras de arte e móveis de época, um grupo de juízes brasileiros e americanos reuniu-se por dois dias nessa semana para debater um temário que abrangia de abstrações em torno do conceito de democracia ao relato minucioso de casos de tráfico de influência, desvio de verbas públicas, compra de votos, lavagem de dinheiro e outros delitos rombudos acontecidos em ambos os países. À entrada do salão uma discreta placa informava a natureza do evento: "Brazil-United States Judicial Dialogue".

Realizado pela primeira vez em 1998 e repetido agora por iniciativa do Woodrow Wilson International Center for Scholars e da Georgetown University, esse diálogo não governamental entre Judiciários dos dois países reuniu, da parte brasileira, uma delegação reforçada - dois ex-presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), os ministros Ellen Gracie e Gilmar Mendes, além do atual, ministro Cezar Peluso, e ainda o colega Ricardo Lewandowski, que acumula a presidência do Superior Tribunal Eleitoral (STE), fora magistrados, professores de direito e advogados de renome. Do lado americano, nem a presença de Clifford Wallace, veterano juiz da Corte de Apelações dos EUA, conseguiu balancear o encontro, que acabou pendendo para o contexto brasileiro.

Nesta entrevista exclusiva concedida ao fim de uma jornada de discussões em Washington, o ministro Peluso admite: a troca de experiências no campo legal é importante, talvez fundamental, desde que respeitadas as diferenças entre os dois países. "É claro que os americanos conhecem o volume impressionante de casos em tramitação na Justiça brasileira. E eles até tentam sugerir soluções. Mas a verdade é que só agora nós começamos a discutir essa crise na sua complexidade", afirma Peluso, cuja missão no momento é levar adiante a chamada PEC dos Recursos, visando a aliviar a sobrecarga de casos em julgamento nas cortes superiores - STF e STJ. Neste ponto, a comparação é acachapante: enquanto os juízes do Supremo precisam decidir em torno de 80 mil casos por ano, seus colegas americanos se concentram no julgamento de apenas uma centena.

O presidente do STF também fala da recente votação por unanimidade sobre direitos da união homoafetiva, reclama maior reconhecimento público de outra votação histórica da Casa, a da liberação das células-tronco embrionárias para pesquisa científica, e diz que o Supremo não tem por que ceder a pressões de grupos religiosos na votação de outras questões polêmicas, como a autorização para aborto de fetos anencéfalos: "Nossa decisão sempre buscará reforçar a laicidade do Estado brasileiro".

Ministro, que impressão fica para o senhor desse diálogo entre magistrados americanos e brasileiros?

Uma boa impressão. Tanto a exposição dos brasileiros quanto dos americanos surpreenderam pela tentativa de buscar pontos de contato, embora os dois lados tenham conhecimento das particularidades de cada sistema judiciário.

Os juízes americanos parecem se impressionar com o alto número de processos tramitando na Justiça brasileira.

Não, eles não estranham porque os números do Judiciário brasileiro são conhecidos internacionalmente, tanto que o juiz Clifford Wallace fez referência a sistemas com volume de casos igual ou superior ao nosso, como o da Índia, com mais de 300 mil processos tramitando anualmente na Suprema Corte. Os juízes americanos procuram entender esse quadro para oferecer sugestões, mas trata-se de uma discussão que só recentemente vem sendo feita pelo Conselho Nacional de Justiça. Tem a ver com mudança de mentalidade na magistratura e na formação dos juízes. Os jovens saem da faculdade razoavelmente preparados para discutir questões do direito, mas sem noção de como lidar com a administração de um processo. Entram num concurso de magistratura, são aprovados e no dia seguinte passam a julgar. Ampliado para todo o sistema, gera-se uma lentidão tremenda.

Isso vem ao encontro da sua missão neste momento, ao apresentar a PEC dos Recursos como forma de descongestionar tanto o STF quanto o STJ, ou seja, grande parte das decisões julgadas pelos tribunais de segunda instância não subiria para os tribunais superiores. Mas com isso o senhor tornou-se alvo das críticas da OAB, que fala até em cerceamento do direito de defesa.

Não aceito a crítica de que o projeto coloca em risco a liberdade do indivíduo. Nos últimos dois anos, num universo de 70 mil processos levados ao Supremo, os recursos extraordinários na área criminal foram 5.700, menos de 10%. Destes, deu-se provimento a apenas 155. Destes 155, 77 foram recursos do Ministério Público, ou seja, o provimento do Supremo foi em favor da acusação, o que agravou a situação dos réus. Houve apenas um caso em que se deu provimento em favor do réu. Um caso! Isso mostra que não há risco para a liberdade do indivíduo. A proposta também não mexe no habeas corpus, como não elimina o recurso extraordinário. Onde está a mudança? Está em que a admissibilidade dos recursos não impedirá o trânsito em julgado. Se alguém for condenado, já vai, a partir da decisão do tribunal local, cumprir pena, mesmo se vier a usar o recurso extraordinário.

Limitar recursos resolveria a protelação no Judiciário?

Não é só protelação, há uma cultura da litigância no Brasil que tem a ver com a formação profissional. Nossos estudantes de direito são preparados para litigar. Existem no currículo das faculdades cursos específicos de conciliação, mediação e arbitragem? Que eu saiba, não. Os estudantes não são preparados para usar instrumentos da negociação. São formados na cultura dos adversários. Ou dos gladiadores, como bem disse o jurista americano Jon Mills.

O estudo Supremo em Números mostra que os grandes litigantes no Brasil são INSS, órgãos públicos federais, estaduais e municipais, bancos e telefônicas. Então, já se sabe quem congestiona o Judiciário.

Há um lado positivo nesses levantamentos, pois permitem que se faça um diagnóstico preciso dos pontos de estrangulamento do sistema. E, ao ficar claro quem são os maiores litigantes, eles próprios repensam suas atividades, de modo a não arcar com essa sobrecarga. Até porque há uma responsabilidade social na lentidão do Judiciário. Não é à toa que nenhum dos grandes litigantes criticou os termos da PEC. Curioso, não?

O Supremo tem sido acusado de hiperativismo no controle constitucional, ao mesmo tempo que reclama do volume de casos com que precisa lidar. Enfim, para que direção aponta a Casa?

O Supremo sempre aponta para os interesses gerais da sociedade. Essa acusação de ativismo não é exclusiva da Suprema Corte do Brasil. Nos EUA, sérios problemas que deveriam ter sido resolvidos no plano legislativo, ou na área administrativa, só tiveram solução social satisfatória com a intervenção da Suprema Corte. Foi assim inclusive com o racismo. No Brasil lidamos com uma Constituição analítica, bem diferente da americana, com seus poucos artigos. A nossa Carta cuida de uma série de matérias que poderiam ser regidas por lei ordinária. E isso tem explicação: a Constituição de 88 foi editada após longo período de autoritarismo, quando os constituintes resolveram regular tudo. Daí o Supremo ser acionado com tanta frequência. E, veja bem, uma vez acionado, ele decide. Isso já foi chamado de "ativismo judicial a convite constitucional", o que é apropriado. Só que o Supremo não dá motivos para acusações de partidarismo. Mesmo lidando com questões políticas, age com independência, ao contrário do que se ouve falar de outras cortes. Eu diria mais: quando decisões da Corte chamam a atenção da opinião pública é porque as matérias tratadas representam divisões dentro da sociedade brasileira. Falo de temas como aborto, células-tronco, fetos anencéfalos, direitos dos homoafetivos.

O reconhecimento desses direitos foi dado pelo Supremo, mas setores contrários continuam a se manifestar...

E como é que uma decisão sobre um tema que divide a sociedade pode não gerar polêmica? Vai gerar, não vai agradar a todo mundo. O fundamental é que a Corte trouxe uma decisão que traz segurança jurídica à sociedade. E uma decisão que também vai ajudar no combate a comportamentos violentos, antissociais, homofóbicos.

Ao decidir por unanimidade essa questão, o Supremo deve ter incomodado setores mais conservadores, mas também agradou aos liberais. Esse julgamento vai ter impacto em outras decisões da Corte sobre temas igualmente polêmicos, como a interrupção da gravidez em casos de anencéfalos?

Uma decisão não muda o Supremo, pois ele decide apegado às suas convicções e normas. Mas uma decisão causa impacto social, porque a sociedade entende que o Supremo não teme tomar decisões compatíveis com a Constituição, a despeito da oposição de certos setores.

Nem pressões vindas do campo religioso podem abalar o julgador?

Não. Ao julgar, o Supremo reforça o caráter laico do ordenamento jurídico. E a independência da Corte vai ao ponto de enfrentar as resistências religiosas em nome da laicidade do Estado.

Foi o que aconteceu na decisão sobre liberar as células-tronco embrionárias para a pesquisa científica, não?

Considero esse julgamento importantíssimo, embora confesse que ali cometemos o mais grave erro de comunicação desde o tempo em que assumi a presidência do STF. O resultado da decisão foi 9 a 1. Só tivemos o voto contrário do ministro Carlos Alberto Direito, falecido em 2009. Mas foi parar na imprensa a versão de que houve três votos independentes da maioria, inclusive o meu. O que fiz no meu voto? Eu disse, e o Ministério da Saúde adotou como orientação, que era preciso estabelecer certos limites éticos para a realização das pesquisas, mas jamais disse que era contra as pesquisas!

Ao decidirem contra a revisão da Lei de Anistia, os membros da Corte atingiram resultado de 7 a 2. Já no caso da Ficha Limpa, o placar foi apertado: 5 a 4. E há decisões unânimes. É possível mapear os momentos em que a Corte vota unida e em que se divide?

Não há isso, diferentemente do caso americano. Há na Suprema Corte dos EUA duas alas definidas: a mais conservadora e outra mais liberal, o que corresponde ao desenho político da vida partidária americana. E também há sempre um juiz que flutua entre um lado e outro. O STF reflete uma largueza de visões que não se prende ao nosso sistema político partidário. Você pode até dizer que há um juiz mais rigoroso em matéria criminal e mais flexível em matéria civil, ou vice-versa, mas para por aí. Eu não chegaria a dizer que o comportamento da Corte é imprevisível. Mas também não é rotulado.

O senhor sente uma ponta de inveja quando vê que seus colegas americanos julgam em torno de cem casos por ano, apenas?

Pois é, a Suprema Corte nos EUA tem poder para examinar um caso e não abrigá-lo para julgamento, inclusive justificando que decisões de outros tribunais sobre o mesmo tema são boas e suficientes para a matéria. O instrumento da "repercussão geral" já permite ao STF fazer isso no Brasil. Equivale a dizer "muito bem, a matéria é constitucional, mas não tem relevância para a sociedade, portanto não vamos tratar disso". Mas ainda não usamos devidamente esse instrumento. Nossa tendência é acolher mais do que seria devido. Como se vê, o Supremo também tem um longo aprendizado pela frente.



Mestiçagens da língua

É falso que a ‘classe dominante’ use a norma culta, como é falso o contrário em relação aos ‘dominados’

21 de maio de 2011
JOSÉ DE SOUZA MARTINS
O Estado de São Paulo
Quando em 1727 o rei de Portugal proibiu que no Brasil se falasse a língua brasileira, a chamada língua geral, o nheengatu, é que começou a disseminação forçada do português como língua do País, uma língua estrangeira. O português formal só lentamente foi se impondo ao falar e escrever dos brasileiros, como língua de domínio colonial, tendo sido até então apenas língua de repartição pública. A discrepância entre a língua escrita e a língua falada é entre nós consequência histórica dessa imposição, veto aos perigos políticos de uma língua potencialmente nacional, imenso risco para a dominação portuguesa.

Agregue-se a isso, a proibição, com o advento da Revolução de Outubro de 1930, das línguas e dialetos originais falados por milhões de descendentes de imigrantes estrangeiros, especialmente italianos e alemães, vindos para o Brasil, com passagem paga pelo governo daqui, para suprir a carência de mão de obra decorrente da proibição do tráfico negreiro e da abolição da escravatura. Proibição que teve em vista forçar a disseminação, também no cotidiano, de uma língua nacional. Ficou nas exigências linguísticas do ensino formal essa herança de um período de autoritarismo político. Reconheça-se, entretanto, que nosso bilinguismo cimentou nossa unidade nacional, a despeito dos sotaques de múltiplas e suaves resistências a imposições oriundas de várias épocas.

Da repressão linguística ficaram sotaques na fala em português, e mesmo erros de escrita, e até curiosos detalhes: entre descendentes de alemães no Sul é fácil perceber o desencontro entre a respiração e a fala. Os falantes ainda respiram em função dos requisitos respiratórios da língua alemã quando falam em português, o que impõe à fala uma notória dificuldade rítmica. A mesma coisa constatou um linguista e musicólogo austríaco, Gehard Kubik, um dos estudiosos da língua dos negros da comunidade do Cafundó, na região de Sorocaba. Identificando-os como bantos, Kubik comparou seus ritmos respiratórios e gestuais aos dessas populações na África, regulados pelo pilar dos cereais, as mulheres com as crianças atadas às costas, respirando no mesmo ritmo das mães mesmo antes de aprenderem a falar. Dos últimos trazidos ao Brasil, no fim do tráfico, em 1850, os negros do Cafundó conservam essa espécie de DNA da língua.

Uma decorrência da proibição do nheengatu, que aliás, ainda se fala em várias regiões do Brasil, é que quase todos nós escrevemos o português da norma culta, mas falamos português, cotidianamente, com sotaque nheengatu. É o que se nota no deleite em pronunciar as vogais, em oposição ao português de muitas regiões de Portugal, de verdadeira aversão às vogais. Lá se fala “flor”, aqui se fala “fulô”; lá “orelha”, aqui muitos ainda dizem “oreia”. Aqui evitamos os infinitivos com os nossos “está”, “falá”, “cantá” ou com reduções como “tá”, “tô”, “né”. Sem contar o caso emblemático do “você”, incorporado à fala gramaticalmente correta, mas que é deturpação nheengatu do “Vossa Mercê”, da sociedade colonial e estamental, os cativos e os ínfimos, ainda que livres, pondo-se de pé e tirando o chapéu para dirigir-se às pessoas socialmente superiores. Tratamento que teve duplo percurso: na cidade virou “você”, na roça e nas regiões caipiras virou “mecê”. Nas cidades o “você” tornou-se pronome substituto do “tu”, da segunda pessoa do singular. Na roça, o “mecê” ainda é tratamento de terceira pessoa, resquício de hierarquias sociais antigas, ficando para a segunda pessoa a variante “ocê” ou o “vancê”.

No livro questionado, porém, o reconhecimento da legitimidade da fala popular se baseia numa premissa completamente falsa: “A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros”. É falso que a “classe dominante” use a norma culta. Frequentemente, empresários urbanos e rurais tropeçam nas normas da língua. Basta acompanhar falas e debates da Câmara e do Senado para testemunhar o reiterado atropelo de nossa língua nacional pela elite do poder. Sem contar que durante oito anos um presidente da República valeu-se de suas próprias regras linguísticas para falar à nação e ao mundo.

É falso, também, o contrário, em relação aos “dominados”. Pesquisador em áreas sertanejas do país, durante muito tempo ouvi suas maravilhosas alocuções, sobretudo de analfabetos, no Maranhão, no interior de Minas e de São Paulo, no sertão do Nordeste, de Goiás, do Mato Grosso, do Pará, falando um português impecável, belo, rebuscado, barroco, a mesma língua dos sermões do padre Vieira. Ainda me lembro da resposta de um morador de povoado do sertão maranhense, um negro velho, de postura e viso patriarcais, a barba longa, mas rala, quando lhe perguntei se tinha chegado ali com toda sua família: “Não, meu senhor. Eu vim pr’aqui com toda minha linhagem”.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS, PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, É AUTOR DE A SOCIABILIDADE DO HOMEM SIMPLES (CONTEXTO)





''Polacas'' do Rio ganham nome em cemitério

Criado em 1916 por prostitutas polonesas, local polêmico passou anos esquecido
18 de maio de 2011 Felipe Werneck / RIO - O Estado de S.Paulo
                                                                               Fabio Motta/AE

Inhaúma. 95% dos túmulos já estão identificados no local, que foi tombado pela prefeitura carioca em outubro do ano passado

A porta está trancada, o repórter toca a campainha e é recebido pela funcionária que cuida da limpeza do Cemitério Israelita de Inhaúma, na zona norte do Rio. "É muito difícil vir alguém aqui", ela comenta. "Não é igual a um cemitério comum. Ninguém visita as polacas." Fundado em 1916 por imigrantes polonesas marginalizadas por serem prostitutas, o local abriga cerca de 800 túmulos. Após décadas de deterioração e esquecimento, as sepulturas começaram a ser reformadas no ano passado. Segundo o presidente do Cemitério Comunal Israelita do Caju, Jayme Salomão, que também administra o de Inhaúma, 95% dos túmulos já estão identificados. Além da pintura, eles receberam placa branca de mármore com estrela de Davi no centro, o nome de quem está ali sepultado, a data do óbito e o número que representa na cronologia do cemitério.

Não houve divulgação. A iniciativa ocorre 15 anos após a polêmica suscitada pela publicação do livro Baile de máscaras: mulheres judias e prostituição. As polacas e suas associações de ajuda mútua (Editora Imago), fruto de dissertação de mestrado da historiadora Beatriz Kushnir, atual diretora do Arquivo Geral da Cidade.

Segundo ela, em 27 de outubro o prefeito Eduardo Paes assinou decreto determinando tombamento definitivo do cemitério. Segundo o documento, "quaisquer intervenções físicas deverão ser previamente aprovadas pelo Conselho de Proteção do Patrimônio Cultural". Nas justificativas do decreto, o local é considerado "marco particular no âmbito dos campos santos da cidade por ter sido criado por mulheres que, em um ambiente hostil, se uniram para garantir sua sobrevivência". Um dos objetivos da decisão foi justamente "garantir a essas mulheres uma memória que não as condene eternamente".

Salomão atribui a demora ao "trabalho minucioso" para levantar os nomes e diz que foram gastos R$ 300 mil na reforma. Agora, ele pretende investir "mais R$ 1 milhão" em um polêmico "projeto de revitalização". Para isso, vai pedir à prefeitura a reativação do cemitério. O objetivo é que a eventual venda de novos túmulos gere receita para bancar a manutenção. Cerca de metade do terreno está livre, avalia.

Salomão insiste na ideia - criticada por Beatriz - de separar os túmulos das polacas por "cerca viva". "É para preservar a história do passado sem chocar. Se juntar tudo, quem for ao cemitério não vai entender nada." Segundo ele, a cerca receberia plantas de 30 a 50 centímetros. Seria uma forma de atender à ala judaica mais ortodoxa, que defende enterro de prostitutas e suicidas junto ao muro de cemitérios. Salomão nega. Segundo ele, a ideia é "criar um museu vivo". "Hoje, aquilo fica fechado o ano inteiro. Queremos que os túmulos sejam visitados. É um lugar sagrado. O objetivo é preservar."

Sítio histórico. Para Beatriz, trata-se de tentativa de "expurgo" da memória dessas mulheres. "Eles podem fazer tudo o que for necessário apenas para manter como sítio histórico. Não podem fazer mais nada para enterrar outras pessoas." Localizado na Rua Piragibe, 99, o cemitério fica colado na Favela do Rato Molhado. "Tem milícia ali. Tirando eu, duvido que outro judeu queira ser enterrado lá", diz Beatriz.

Vice-presidente da Federação Israelita do Estado até novembro e presidente da sinagoga Beyruthense, Salomão reconhece que há preconceito entre representantes da comunidade judaica, mas afirma que não há respaldo institucional para isso. "Pode ser que algumas pessoas, sim, mas eu acredito que não exista preconceito. Se existisse, não falaríamos em reativação do cemitério. A ideia da revitalização é dar continuidade."

A historiadora defende arborização e preservação do local como está. Para ela, a reforma foi uma vitória. "Mas fico com pena de não ter sido como em São Paulo (veja ao lado), onde a comunidade judaica foi muito participativa, não se fez nada às escondidas, houve inauguração das lápides. Aqui tem muito mais caráter de imposição por circunstâncias do que vontade própria."

O livro de Beatriz contabiliza 797 sepulturas. Na ocasião - a dissertação foi defendida em 1994 e o livro, lançado dois anos depois -, ela localizou duas descendentes de polacas. "Muitos não sabem ou preferem não se meter nisso", conta. Segundo a Federação, foram localizadas 807 durante a reforma. Criado a partir de um modelo associativo, o cemitério de Inhaúma abriga corpos de mulheres, homens e crianças. "Não é porque foram prostitutas que elas não eram casadas. E não necessariamente o marido era cafetão; elas também eram cafetinas (donas de prostíbulos)", explica Beatriz.



domingo, 24 de abril de 2011

Entrevista com Nelson Rodrigues

Entrevista com Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues
Dramaturgo e cronista esportivo
Entrevista realizada por Geneton Moraes Neto
Título: “Ao cretino fundamental, nem água”
Fonte: Site Genetom
GMN : Quando foi que Nélson Rodrigues descobriu que nascera para escrever ?
Nélson : “A coisa é a seguinte : escrever para mim,muito mais do que uma decisão profissional,é um destino.Escrever é o meu destino ! Não é um caso de opção.Eu só tinha esta opção,uma vez que nasci assim”.
GMN : O senhor se considera um escritor por vocação ?
Nelson : “Digo que,no meu caso,eu nem precisava de vocação,porque o negócio era o óbvio – o óbvio ululante ! Eu tinha de ser aquilo. Se você chagasse junto de mim e pedisse para eu ter outra profissão,podia até dar dinheiro para que eu tivesse outro destino,não seria absolutamente possível”.
GMN : O início foi com ficção ou com jornalismo ?
Nélson : “Eu estava no quarto ano primário na Escola Prudente de Morais.Uma dia,a professora – que mandava a gente desenhar e colorir uma vaca de estampa,para que nós,alunos,fizéssemos em torno da vaca toda uma história – disse : “Olhem aqui : Hoje,vocês vão ter de escrever da próprio cabeça.Agora não é mais sobre a vaca pintada”. E então deixou que cada um de nós fizesse o seu drama,o seu projeto dramático.
Duas histórias tiveram o primeiro lugar.A do meu adversário era um a história de um daqueles magnatas que davam passeios.Ele descrevia o passeio de um rajá no seu elefante favorito.E pronto.A minha foi inteiramente diferente.Eu fiz a história de uma moça que era uma fera.Quase uma dama do lotação.Um dia,o marido chega em casa mais cedo e,quando empurra assim (imita o gesto de alguém forçando o trinco de uma porta) . Entra em casa,segura o amigo traidor e enfia nele uma faca. Eu tive o primeiro lugar e empatamos.O prêmio ao rajá e ao respectivo elefante era uma concessão ao convencional.
Isto foi a primeira vez em que eu era ficcionista.Todo o meu futuro está aí. Era a história de uma pobre adúltera que morreu de maneira tão melancólica.O traidor morreu também de maneira melancólica : direi,a bem da verdade,que a minha história causou um horror deliciado.Eu era,para todos os efeitos,um pequeno monstro.
comecei com treze anos a trabalhar como jornalista profissional e repórter : esse é o caso. Não teria jeito: eu teria de meter uma bala na cabeça…”.
GMN : Para o senhor – que é considerado um mestre nesse ofício – o que é necessário para retratar, num texto teatral, o mundo desses personagens suburbanos das nossas cidades?
Nélson : “Em primeiro lugar, o sujeito tem de ser ficcionista. Precisa ser inteiramente sensível ao primeiro chamamento da profissão. Não basta apenas o gosto. Não é apenas uma facilidade, mas um destino” (pronuncia em tom dramático esta palavra)
GMN : A inspiração é uma entidade que existe para o senhor?
Nélson : “O negócio da inspiração é o seguinte : eu considero a inspiração,ao contrário de Valèrie, que só via a máquina individual do ficcionista. Aquilo é uma coisa que o ficcionista apura com o tempo, desenvolve com a experiência”.
GMN :Dentre as peças que escreveu, qual a que o senhor considera como definitiva, como a obra acabada do dramaturgo Nélson Rodrigues?
Nélson : “O mais importante para mim,até o momento,é o dramaturgo. Volta e meia, me sinto muito perplexo diante de certas manifestações que me induzem ao teatro, embora o teatro tenha um defeito : tenho de vez em quando vontade de fazer certas experiências não teatrais dentro da área de literatura, mas sem ter nada de dramático”.
GMN : Dentre as peças já escritas,qual é a predileta?
Nélson : “ Tenho várias prediletas. Eu diria mesmo que são todas as prediletas.Não tenho prediletas(ri). Todas são favoritas. Já pensei muito em querer discriminar qual a minha melhor peça, mas não sei”.
GMN : Que autores brasileiros de hoje o senhor considera como verdadeiros artistas do teatro?
Nélson : “Vou pular esta,porque tenho autores que são inimigos meus. Pior do que o inimigo é o amigo. Um autor que é um amigo tem todos os defeitos…”
GMN :O senhor diz sempre que “a admiração corrompe”. É o caso ?
Nélson :“É isso, é o caso. A admiração corrompe. O amigo que é o nosso maior torcedor não é o maior coisa nenhuma, porque, ele próprio, não consegue se prender. Então,começa a fazer insinuações e etc…Como eu sinto, evidentemente, o nosso amigo, o inimigo, com a maior facilidade, então eu prefiro o inimigo” (ri).
GMN : Se o senhor fosse levado a fazer uma hipotética opção entre o teatro e o jornalismo, qual dos dois preferiria?
Nélson : “O teatro ! E não é um problema de qualidade intelectual não”.
GMN : O jornalismo brasileiro continua padecendo de objetividade? – que o senhor considera uma “doença grave”?
Nélson :“O idiota da objetividade é o jornalista que tem grande fama, todo mundo, quando fala dele, muda de flexão. Mas eu acho o idiota da objetividade um fracasso. Isso num julgamento absoluto. O idiota da objetividade é também um cretino fundamental”.
GMN : Quais foram as causas da ocorrência desse culto à objetividade que, no conceito do senhor, corresponde à falta de emoção?
Nélson : “Pois é, é esse o negócio (ri de novo). É a falta de complexidade do sujeito que diz só a coisa certa ou aparentemente certa e não vê que todo fato tem uma aura. A verdade é que o fato só, em si mesmo, é uma boa droga. Olhe aí (e mostra a crônica “A Desumanização da Manchete”):
O “Diário Carioca” não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: o fato e a sua cobertura. Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção da população. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy. Na velha imprensa, as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy-desk, sumiu a emoção de títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do “Jornal do Brasil”. A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver, ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto na manchete. Havia um abismo entre o “Jornal do Brasil” e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete”.
GMN : A ausência de um ponto de exclamação numa manchete faz falta ao leitor comum?
Nélson : “Faz. Eu digo o seguinte: na minha infância,havia primeiro o “Correio da Manhã”, um jornalaço. E havia “A Noite” – que vendia muito mais. E era um jornal muito mais amado pelo leitor. “A Noite” era um jornal amado (acentua a voz, ergue os braços). O sujeito comprava “A Noite” disposto a ler ou disposto a não ler. Não fazia mal isto. Ler ou não ler era um detalhe insignificante. Mas o povo gostava desse jornal. E esse antigo jornalismo permitia, por exemplo, que você fosse fazer a cobertura de um incêndio e levasse na mão uma casa de pássaro, uma gaiola e metesse a gaiola com um pássaro lá num certo ponto da casa em chamas. E aí o repórter que não era idiota da objetividade dizia que o nosso querido fotógrafo ouviu toda a cantoria do canário. E terminava dizendo: “Morreu cantando” (a essa altura, Nélson Rodrigues concede uma entonação teatral a esta frase). O repórter fora cobrir um incêndio. Mas o fogo não matara ninguém. E a mediocridade do sinistro irritara o repórter. Tratou de inventar um passarinho: enquanto o pardieiro era lambido, o pássaro cantava, cantava. Só parou de cantar para morrer.
A história desse canário fez um sucesso tremendo. Um sujeito queria uma vala especial para o canário, o nosso querido canário cantor. Era lindo. O jornalismo de antigamente era mais ou menos assim. Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. Lemos jornais dominados pelos idiotas da objetividade. A geração criadora de passarinhos parou em Castelar de Carvalho, o autor dessa reportagem sobre o incêndio. Eis o drama: o passarinho foi substituído pela veracidade que, como se sabe, canta muito menos. Daí porque a maioria foge para a televisão. A novela dá de comer à nossa fome de mentira”.
GMN : Que fatos ou situações brasileiras o senhor contemplaria com um ponto de exclamação numa manchete de jornal?
Nélson : (pensativo, com olhar distante) – “Deixe-me ver… O negócio é o seguinte: houve num desastre uma coisa atroz que foi uma explosão. Morreram seiscentos sujeitos, segundo as manchetes da ocasião. Todo mundo fazia coro… E outro caso de repórter que não era idiota da objetividade: o sujeito foi fazer a cobertura de um desastre de trem. Geralmente, em desastre de trem, morria gente pra burro. Agora, morre muito menos, não sei porque.
Mas qual é o fato ? Deixe-me ver…Ah, o suicídio de Getúlio Vargas foi de uma brutalidade incrível. Uma coisa bonita é que foi uma coisa misteriosa, aí é que não entrou objetividade nenhuma. Morreu, então o cara passa a ser um deus. O que é que você pode fazer contra o cara? Deu um tiro no peito, ia ser deposto. E só porque ia ser deposto ele se mata.
Veja só: no princípio da minha infância havia o pacto de morte. Havia sujeitos que se amavam tanto que já não suportavam mais o próprio amor. Então, o que fazia ele? Propunha à pequena o suicídio, um pacto suicida. Rara era a pequena que duvidava. O lindo era a vontade, o encanto com que esse par de amorosos se matava e cumpria o seu destino. Esse é que é o caso”.GMN : Quer dizer então que na história recente do Brasil o suicídio de Getúlio Vargas seria o último grande fato que mereceria um ponto de exclamação do senhor numa manchete de jornal?
Nélson – “Olhe: quando eu digo merecer a manchete de jornal… (interrompe, olha para a televisão, comenta a iminência de um gol da seleção brasileira, distrai-se, retoma a conversa de um ponto anterior). Você compreendeu como é o caso? Antes de certo tempo aí, achavam que era uma coisa gravíssima o sujeito se matar, era uma covardia. E nem ele nem a menina acreditavam que isso fosse um defeito, o defeito de se matar: alguém ter o direito de destruir o próprio amor e o amor do outro. Mas os dois se destruíram. O sujeito achava que era uma maneira de coroar o próprio amor.Agora, a nossa realidade está realmente muito pobre, muito vazia, sem um certo apelo dramático. Ninguém hoje quer morrer, ninguém quer se suicidar ! . Ali o sujeito só queria destruir o amor. E aí a sogra ia cuspir na morte do sujeito que lhe matara a filha”.
GMN : O senhor lê a chamada imprensa alternativa?
Nélson – “Alternativa o quê?”
GMN : A imprensa alternativa, esses novos jornais que têm surgido, o senhor lê ?
Nélson : “Eu leio de vez em quando mas não faço questão, porque jornal é uma coisa inquietante. O jornal não é o jornal do dia, é o jornal da véspera. Há anos não leio um jornal que não seja rigorosamente o jornal da véspera. Só sai o jornal da véspera e nunca o jornal do próprio dia. São fatos da véspera , figuras da véspera. O fato do dia não existe e ou só existe para rádio e as TVs. No passado, a notícia e o fato eram simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar na página do jornal. E assim o marido que matava a mulher e a mulher que matava o marido. Tudo tinha a tensão, a magia, o dramatismo da própria vida. Mas, como hoje só há jornal da véspera, cria-se uma distância entre nós e a notícia, entre nós e o fato, entre nós e a calamidade pública ou privada. Servem-nos a informação envelhecida. Nós, jornalistas, é que estamos mais obsoletos, mais fora de moda do que charleston, do que o tango”.
GMN :Não há nenhum fato do dia…Nélson – “Pelo menos a gente tem essa impressão. O que nós chamávamos antigamente de furo não existe mais. Todos hoje acham que podem viver sem o furo, ao passo que, no meu tempo, quando eu era garoto, um furo de reportagem era tudo. Era o grande momento da carreira.
Agora, para falar de manchete, outro fato formidável foi o seguinte: antigamente, o Largo do São Francisco era o local próprio para o sujeito se manifestar. E quando havia muitos interessados em se manifestar, havia o diabo, o diabo! Um dia, fizeram uma coisa qualquer com o chefe de polícia. E o chefe de polícia – que era um santo – assinou uma portaria proibindo os estudantes não sei de quê nem ninguém sabe. Tudo que houve foi por conta da falta de bossa, da falta de inteligência dos nossos queridos estudantes.
E então os estudantes resolveram fazer um “enterro” do chefe de polícia – que era um velho general, sujeito que acreditava em honra, num tempo em que ninguém sabia o que era honra. O general era um santo homem e então achou que aquilo era brincadeira de estudante. E lá foi ele dizendo aos queridos investigadores que não queria machucar ninguém. Nada de bala, nada de punhal, dizia o nosso general. E no dia do “enterro”, os estudantes carregavam o caixão, todos levando uma vela acesa. Era uma coisa só, com mil vozes cantando a marcha fúnebre, dando vivas à morte. Dois ou três homens de polícia, furiosos com a questão, simplesmente acharam de matar três estudantes. Aí foi aquela coisa tremenda. Houve então uma manchete, a manchete mortal da imprensa brasileira. Um jornal descobriu uma manchete fantástica (muda a flexão de voz, entusiasmado). A manchete quase derruba a presidência da República, a vice-presidência, o chefe de polícia imediatamente se demitiu, foi embora, não quis mais nada, achando-se culpado. Inventaram uma manchete que até hoje eu gosto de ouvir…”
GMN : Qual foi?
Nélson : “Era assim: “Primavera de Sangue” (pronuncia cada uma das sílabas devagar, como se saboreasse as palavras). A manchete quase derruba o presidente da República, o ministro da Guerra, um negócio terrível. E tudo isso pela beleza que se atribui à manchete. Quero dizer que, se você quiser, com uma frase bem trabalhada, você resolve o caso.”
GMN :De quando foi essa manchete?
Nélson : “Eu era garoto, tenho agora sessenta e cinco anos. E foi na altura dos meus dez anos. Agora, eu sei disso tudo pelas informações do pessoal. O cara que fez esta manchete ganhou uma fortuna, quinhentos mil réis. Só o Rockfeller tinha esse dinheiro na ocasião (ri)”.
GMN :O senhor se interessa por política partidária?
Nélson : “Eu não sou ninguém para dizer certas coisas, mas o bom no brasileiro é que ele, sem saber de nada, diz coisas horrendas”.
GMN : Quais são os políticos brasileiros que o fascinaram ou fascinam hoje? Existe algum nome que o senhor queira citar?
Nélson (Pausa de alguns minutos, ele está pensando) : “Num desses momentos, quem é o sujeito? Já começo a ficar amargurado, porque para achar um sujeito, poder dizer um político interessante… Eu acho que só Napoleão Bonaparte ! (ri)”.
GMN : O senhor já disse que um dos traços do caráter nacional é o fato de que o brasileiro adere a qualquer passeata. Quais seriam os principais traços do nosso caráter nacional?
Nélson : “O brasileiro é um tipo gozadíssimo. O diabo é que o brasileiro não pode se esforçar muito porque, senão, cai na chanchada trágica. O brasileiro é um sujeito que gosta de fazer farra, é um desses que, em pleno velório, põe a mão na viúva. E a viúva é também um caso sério porque este negócio de viúva vocacional é um fato. Há realmente um repertório sensacional de casos. O que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro. Houve um tempo em que nem o Departamento de Pesquisa do “Jornal do Brasil” sabia quem era o brasileiro.Mas se um sujeito se apresentava como brasileiro, as pessoas de bem respondiam: “Não te conheço!”.
E muitos duvidavam que o Pão de Açúcar ou o poente do Leblon fossem brasileiros.
Olhe: houve tempo em que a mulher mais séria do mundo, mais digna, mais respeitável se deixava envolver por um poeta, se abandonava por um soneto. Era outra vida. De repente eu fico olhando: era outra vida, outro homem. E havia a figura do bêbado. Hoje, o bêbado é um sujeito que a psicanálise cura depois de quinze anos de tratamento, quando, aliás, a cura já não adianta mais nada. Eu tinha um tio que se enamorou da minha tia Yayá. E se você perguntar “Qual foi o maior homem que você viu no mundo?”, eu acho que esse tio está no segundo ou terceiro lugar, porque o desgraçado, ele amava a minha tia Yayá. Ele já não precisava mais beber para estar bêbado, de alto a baixo. E, com isso, fazia uma considerável economia de dinheiro…
Em minha família houve um bêbado indubitável, foi este meu tio Chico. Como sujeito que bebe muito, ele durou pra burro. Morreu com oitenta e tantos anos, sempre bêbado, rigorosamente. Vem desse tio antigo o meu horror ao bêbado. Mas ele me ensinou também uma série de coisas lindas. Por exemplo: o amor. Meu tio Chico me ensinou a amar. Embriagou-se em cada minuto da lua-de-mel. Bebeu antes, durante e depois. Yayá costurava para o casal não morrer de fome. Mas eu, menino, queria amar e ser amado como esse alcoólatra enlouquecido. Era um amor que hoje não existiria. A minha tia Yayá deu graças a Deus que ele tivesse se apagado. Agora ninguém ama mais, eis o que comecei a descobrir desde os treze anos de batalha. Você ponha aí: o meu tio Chico e sua bem amada Yayá. Era um negócio impressionante.”
GMN : Por que é que o senhor diz, desse jeito, que hoje ninguém ama mais ?
Nélson : “Meu bem, se a evidência objetiva e espetacular vale alguma coisa, o homem não ama mais. E não ama mais porque o nosso cenário se povoa de sujeitos que são débeis mentais absolutos. O sujeito já não acredita em amor, pra começo de conversa. Não acredita em amor. O sujeito acha que todo mundo é a mesma coisa, e apesar disto, se diz marxista. É uma coisa esterilizante que há na vida brasileira, sobretudo carioca. O carioca é esse sujeito fascinante só na base dos defeitos que tem. Arranja logo casamento e é uma besta. E todo mundo diz: “Oh, que coisa, que amor!”.
E eu me lembro de uma menina grã-fina mesmo…
Aliás, diga-se de passagem que eu não acredito na existência da grã-fina nem do grã-fino. Dou-lhes este nome. Mas é incrível esse negócio da mulher moderna (fala com a voz arrastada, como se entoasse um lamento). Nunca ela foi tão infeliz e tão pouco feminina. Eu tive um cachorro, o nosso querido Boogie-Woogie, que ficava diante da minha casa amando sua querida cachorra. Ela ficava lá, digníssima, empinada, recebendo as homenagens. Os carros passavam e achavam o cachorro louco. E esse nosso amigo, o cachorro, era muito mais humano que a mulher dos nossos tempos. Elas se meteram a bestas”.
GMN : O brasileiro continua sendo um “Narciso às avessas que cospe na própria imagem”, como o senhor dizia?
Nélson – “Continua, continua !”.
GMN : Qual é o remédio para isso?
Nélson : “O remédio para isso? Nunca. Para isso não há remédio. Veja que o Brasil ganhou três vezes o campeonato mundial. Se ganhou três vezes, e se o brasileiro não fosse o otário que é, estava tudo salvo, tudo salvo. Ganhou três vezes no futebol, feito como esse ninguém teve e não se conhece isso.
O brasileiro tem virtudes. É bom fazer uma ressalva nesses defeitos que digo. Isso o torna extremamente simpático. Aquela volubilidade… O sujeito ora ama aqui, ora ama ali… Vai lá pra chegada do trem elétrico, vai arranjando os seus amores que, aliás, duram geralmente vinte e um dias, quando duram. Há pessoas que casam e lá na sacristia estão os convidados fazendo apostas sobre a duração daquele casamento. E você pode ficar sossegado porque aquele casamento está inteiramente liquidado antes do começo. Há amores, entendeu, que o sujeito traz consigo e realmente são sinceros. Mas evidentemente, não existe este amor, porque o nosso querido Brasil…
Olhe: em 1958, quando o nosso querido Brasil voltou campeão da Copa, foi o maior futebol que jamais se viu…”
Diga-se de passagem que eu considero o brasileiro o maior sujeito do mundo. O europeu já está esgotado. O europeu tem na casa dele pires de mil anos. Escadas de mil anos. Tudo é velho pra burro. Já com o brasileiro é inteiramente diferente. É como se ele estivesse sempre há quinze minutos do fato. Um negócio genial.
(Nélson tinha mudado de assunto;volta ao futebol)Basta o sujeito passar quinze minutos assistindo a um jogo importante desses camaradas. Esses rapazes são uns gênios. Mas o sujeito pensa que isso não é importante e sai, nem liga. Mas quando o negócio vai se transmitir em forma de gorjeta, aí então o brasileiro é um feroz…”
GMN : O senhor diz também que a paisagem dos países desenvolvidos é triste sem imaginação…
Nélson : “É. Como se não bastasse a padronização de caras, corpos, costumes, usos, idéias, valores, há também a estandardização da paisagem. Tudo prodigiosamente igual. É trágica a falta de imaginação da paisagem no país desenvolvido. O desenvolvimento é burro, ao passo que o subdesenvolvimento pode tentar um livre, desesperado, exclusivo projeto de vida.
O diabo é que o Burle Marx, no Brasil, faz o que nem o europeu faria lá. O nosso Burle Marx retira a flor da paisagem. Dizem que o Amazonas é a coisa mais gigantesca do mundo. O nosso Burle Marx só usa uma cor, a verde, e danem-se as outras cores. Fiz esta anotação e ele me disse numa entrevista dele que o teatrólogo Nélson Rodrigues, com certeza, não estava olhando para a paisagem, não viu outra cor, se não a verde. Fui espiar lá e, realmente, o único paisagista do Aterro do Flamengo é o Exército, porque acrescentou, ao Monumento dos Pracinhas, algumas flores, umas dezessete flores. O paisagista foi o ministro da Guerra. O nosso querido Burle Marx, a quem muito admiro, não pôs flores no Aterro, e com a maior tranqüilidade do mundo. Não precisa prestar atenção… O negócio das cores… (Nesta altura da conversa, ele ri e confessa: “Eu estou tendo lapsos lamentáveis…”).
Você sabe o que é o sujeito fazer uma bobagem e negar a verdade? Se ele aceitar o erro, está bem. Agora, quando o sujeito fica impune… A impunidade faz de um São Francisco de Assis um canalha. Ele comete um ato e ninguém o prende, ninguém o ameaça, sequer.
É este o caso de Burle Marx. Como ele está faturando cada vez mais, não liga por ter feito um jardim onde só existe uma cor e onde não tem uma violeta. Ele está cada vez faturando mais, e mais fiel aos seus erros, porque descobriu que o erro está muito mais perto do êxito. Já falei pra burro, agora você está satisfeito, não é? E vai querer continuar…”
GMN : Agora, uma explicação para as causas do rancor e da ironia feroz que o senhor cultiva diante de seus personagens, como por exemplo, “as verdadeiras grã-finas”…
Nélson : “O que eu acho é que a gente diz “grã-finas” sem achar que elas tenham obrigação de agir como grã-finas. E elas não agem como deviam ser. Maria Antonieta podia dizer: “Ah, eu sou grã-fina…”. Por isso, certa vez, o povo estava urrando de fome de fora do palácio e ela disse: “Se não tem pão, comam brioche”. Então, a Maria Antonieta é que poderia bradar: “E, portanto, eu posso dizer que sou grã-fina”. Ela derrubou um erro, derrubou um regime horrendo. A única grã-fina do mundo é a Maria Antonieta. De então para cá nunca mais vi uma grã-fina. E muito menos uma grã-fina paulista que é gorducha, porque tem dinheiro à beça para comer. E come. Mas não existe. A nossa querida grã-fina precisa de dinheiro. Como precisa de dinheiro, e está furiosa porque não tem, então assume diversas atitudes, como, por exemplo, dizer numa mesa: ”Na minha casa, só as criadas vêem televisão”. As grã-finas não existem. A única descoberta que eu fiz com as grã-finas foi esta: elas não existem.”
GMN : E as “estagiárias de calcanhar sujo”?
Nélson : “Já as estagiárias têm uma existência feroz…(ri, acentua o tom de voz). Sobre nossa querida estagiária, eu vou te dizer o seguinte: é incrível. Meninas que não serviriam para babá nem poderiam entrar num cinema para ver filme francês ou meu próprio filme, a “ A Dama do Lotação”, fazem atitudes que os bocós consideram geniais.O que assombra na estagiária não é a sua graça pessoal, mais discutível, menos discutível, segundo cada caso. O que me assombra são as suas perguntas e repito: são as perguntas que tornam a estagiária um ser tão misterioso e absurdo como certas imagens de aquário. Uma dessas meninas irreais de redação é bem capaz de atropelar um presidente, um rajá, um gangster ou um santo ou, simplesmente, uma dessas velhas internacionais que embarcam em todos os aeroportos. E perguntar: “Que me diz o senhor, ou a senhora, de Jesus Cristo do Nada Absoluto, do Todo Universal ou da pílula?”
Você veja: uma delas foi incumbida de entrevistar um milionário. Ligou para a casa do milionário, disse: “Eu queria falar com o Dr. Fulano”. Do outro lado, uma voz responde: “Dr. Fulano não está passando bem”. E a menina insiste: “Então, pergunta a ele se…”. Desligam e a estagiária disca novamente, não com o dedo, mas com o lápis: “Eu queria falar com o Dr. Fulano”. A pessoa diz, desatinada: “Minha senhora, o Dr. Fulano acaba de ter um enfarte. Enfarte, minha senhora, enfarte. A senhora quer que eu diga mais do que estou dizendo?”. E a estagiária: “Vai lá e pergunta a ele o que é que ele acha da pílula. Eu espero”.
A família do enfartado toda se descabelando… o que, aliás, é raro, porque, no nosso tempo, a família chora muito pouco. O inimigo da morte – que é o clínico – dá logo um furioso calmante.
A estagiária então liga novamente. Dá sinal de ocupado. Continuou, com uma obstinação fatalista. E sempre ocupado. Uma hora depois, atendem. Era uma mulher que ou estava gripada ou chorando. A estagiária diz: “Por obséquio, eu queria falar com o Dr. Fulano”. Responde a voz feminina: “O Dr. Fulano acaba de falecer”. E a estagiária: “A senhora diz a ele que é só uma perguntinha”… e etc.
Agora, há um dado que me parece essencial. As entrevistas das estagiárias têm uma virtude rara: nunca saem. Falo por experiência própria. Quase todos os dias, uma estagiária me caça pelo telefone. E eu falo sobre todos os temas e personalidades. Opinei sobre os Kennedy, João XXIII, o Kaiser, Gandhi. No dia seguinte, abro o jornal e vejo que não saiu uma linha. Mas uma coisa curiosa: não só as estagiárias. Profissionais da melhor qualidade estão seguindo a mesma linha. Posso dizer que a nossa imprensa criou o novo gênero de entrevistas que não serão publicadas nem a tiro”.
GMN : O que é que o Recife significa para o senhor hoje?
Nélson : “Eu gosto do Recife pra burro. Vim de lá aos cinco anos de idade. Fiquei lá até o ano de 1929. Você veja: me dá pena estar pensando no Recife e nunca ir lá. Tenho, em minha memória profunda, um apelo de pernambucano pelo Recife”.
GMN : O senhor não pensa em voltar?
Nélson : “De vez em quando eu faço evocações......(Um dos textos de “O Reacionário” traz lembranças da cidade ) Toda a minha infância tem gosto de pitanga e de caju. Pitanga brava e caju de praia. Ainda hoje, quando provo uma pitanga ou um caju contemporâneo, sou arrebatado por um desses movimentos proustianos, por um desses processos regressivos e fatais. E volto a 1913, ao mesmo Recife e ao mesmo Pernambuco. Alguém me levou à praia e não sei se mordi primeiro uma pitanga ou primeiro um caju. Só sei que a pitanga ardida ou o caju amargoso foi a minha primeira relação com o universo. Ali eu começava a existir”.
GMN : O senhor não volta ao Recife porque tem medo de avião?
Nélson : “Acho chato viajar de avião, não quero voar, a não ser caso de vida ou morte. Tenho horror às viagens. A partir do Méier, começo a ter saudades do Brasil”.
GMN : Qual foi a última vez que o senhor esteve no Recife?
Nélson : “Em 1929. Tenho um sadio horror de avião”.